O diretor de "É classe A" (veja clipe), de MC Backdi e BioG3, é Konrad Dantas, o Kondzilla, nascido no Guarujá (SP). Ele diz que não precisa alugar objetos de valor para filmar. "Quem não é desse mundo acha que funkeiros são um bando de favelados. O pessoal não sabe como o funk gera dinheiro. Tem músico girando mais de R$ 150 mil por mês", diz Konrad. Ele planeja um documentário sobre o funk de ostentação. "Quando as letras de São Paulo falavam mais de crimes, o baile não enchia, havia confusão. Hoje, com a ostentação como tema principal, atingiu a mulherada. As pessoas querem ver o que gostariam de ter", explica
"Quando faço uma letra, me inspiro no que vejo e vivo. Todo mundo gosta de ter um carro bacana. Eu tenho dois. Em uma balada, hoje, é importante o traje que você usa, estar com um relógio legal", diz o paulista MC Danado, que é produtor de eventos. Ele tem outros investimentos, como cita na letra de "Top do momento" (veja clipe). O clipe tem quase 8 milhões de visualizações. O sucesso no YouTube é fundamental para estourar: estes artistas raramente gravam discos. Quando o fazem, mais distribuem do que vendem. O negócio é (literalmente) lançar CDs ao público. "Jogo 50 ou 60 discos por show", diz Danado.
'Funk paulista' ja é moda no YouTube com carros, motos e notas de 100'
A batida não é diferente do funk carioca que esquenta bailes há 40 anos. Mas o sotaque, as letras e imagens são paulistas. Em vez de ousadias sexuais, os temas são artigos de preços altos: carros, motos, óculos, roupas, bebidas, etc.
Na parada dos cem vídeos musicais mais vistos no YouTube no Brasil, atualizada a cada dia, estão presentes nas últimas semanas pelo menos dez produções de funk de São Paulo, cujos versos parecem leituras de catálogos de lojas de luxo. Nos clipes, tem até dança na boquinha da garrafa de uísque 18 anos. É o retrato da ascensão do funk paulista.
"A parada do YouTube está dividida entre pop, sertanejo e funk. Sertanejo está há um tempo, agora o funk vem com tudo. De São Paulo", ressalta Finson Gallar. Ele administra redes sociais de uma agência paulista de funk. Antes, trabalhava com rock - NX Zero, Fresno e Restart foram clientes. "A garotada quer algo novo. MC Guimê tem 1,7 milhão de views por semana. MC Danado tem 500 mil", conta o diretor artístico.
O FUNK PARA O MUNDOselecionou faixas de funkeiros de São Paulo e de artistas de outros estados - que já incorporam a influência paulista das letras de ostentação -, e calculou quanto dinheiro seria necessário para comprar os produtos citados nas letras. As cinco músicas, lançadas em 2012, figuram no ranking de vídeos musicais mais vistos no YouTube no Brasil, graças a versos como "Vida é ter um hyundai e uma hornet / 10 mil pra gastar com rolex e juliet / Melhores kits, vários investimentos / Ai como é bom , ser o top do momento".
Funk é um gênero musical que se originou na segunda metade da década de 60 quando músicos afro-americanos, misturando soul, jazz e R&B, criaram uma nova forma de música rítmica e dançante. O Funk tira o ênfase da melodia e da harmonia e traz um groove rítmico forte de baixo elétrico e bateria no fundo. Músicas de Funk são comumente baseadas em um acorde apenas, distinguindo-se das músicas de R&B, que são centradas nas progressões de acordes.
FUNK O$TEMTAÇÃO
A trilha sonora das periferias do estado de São Paulo mudou nas últimas décadas. Antes dominadas pelo hip-hop de forte temática social, do engajamento "rap é compromisso", agora o som que faz a cabeça de quem frequenta os lotados bailes é a batida do funk.
Mas é um funk diferente. Influenciado pelo estilo gerado no Rio e famoso internacionalmente, o pancadão paulista tem a sua personalidade, e reflete o clima otimista do Brasil da última década. Os temas como preocupação social (ou o "proibidão", crônica da vida no crime) dão lugar às marcas de roupa, carros, bebidas, joias e mulheres. Tudo de forma direta, na letra e na música.
Quem conseguiu colocar esse clima de forma clara em vídeo foi o diretor e produtor Konrad Dantas, criador e homem por trás da Kondzilla. Para se ter uma ideia, somente neste ano a produtora colocou no ar mais de 70 clipes, sendo que muitos deles ultrapassaram a marca dos 20 milhões de visualizações no YouTube.
Com o sucesso dos videoclipes, o diretor Renato Barreiros, o produtor Bruno Bertolazzi e Kond se juntaram em agosto deste ano para filmar o documentário ‘Funk Ostentação’, lançado na semana passada no YouTube (assista ao filme na íntegra acima). “O movimento ainda está acontecendo, não chegou ao ápice. Pensamos: vamos documentar antes que exploda de vez”, disse Renato em entrevista à MTV.
Pioneiro na estética da ostentação, Kondzilla – Konrad, Kond e o nome da produtora são uma pessoa só, embora muita gente pense que não – explica um pouco a ideia: “Se a música diz que o óculos está em cima da mesa, precisamos filmar um óculos em cima da mesa”. É o que ele batizou de “pleonasmo visual”.
“A galera assiste ao clipe no YouTube e não acredita nos carros todos. Eles pensam que é tudo alugado, mas não, é do MC, que conseguiu fazendo shows de funk”, diz Bruno Bertolazzi - um MC “estourado”, por exemplo, chega a fazer cinco apresentações por noite